sábado, 27 de outubro de 2012

A Urca















Tens o cheiro de paz
Mulher que o tempo não envelhece
As horas não passam
Só um bondinho que sobe e desce
Calmaria rodeada de barquinhos
E pescadores,
Atores de uma pintura a óleo


As idades se cruzam
Em caminhos tão descansados
Nada em ti parece ter pressa
Céu coberto de açúcar.


Henrique Rodrigues Soares - Horas de Silêncio
15/02/2012.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Pelé




Mil novecentos e quarenta foi o ano
Vinte três de outubro foi o dia
Em que o futebol da magia
Concebeu seu soberano.


Nas Minas um negro diamante
No berço das Três Corações
Seu brilho de chuteiras e calções
De Bauru ainda infante


Partiu para o mundo com uma camisa
Branca que dominava adversários
Podia ser como tufão ou como brisa
A  Vila Formosa foi o maior cenário


De uma poesia estonteante
Dribles magníficos e desconcertantes
Pobres dos goleiros já previam
O que seus torcedores já sabiam.


Maestro da bola, tenor do pé,
Embaixador do encanto, isto é Pelé.
Gols, mil duzentos e setenta nove
De uma objetividade nobre.


As imagens da nossa seleção
Camisa dez sem comparação
De uma nação de brasileiros
Orgulhosos, e sem nação.


Com a camisa canarinho
Até em campos sem lei
O futebol sozinho
Escolheu seu Rei.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

terça-feira, 3 de julho de 2012

Quihica




















Aquilo que esperamos desde que nascemos
Aquilo que vislumbramos na tenra idade
Ao perder inocência nos embrutecemos
Com o medo assombroso da fatalidade



Os que vencem os anos com sacrifício
Deixando mais lágrimas do que sorrisos
Os que partiram jovens pelo oficio
De serem livres e sem compromissos



A sociedade precisa de seus heróis
A sociedade constrói os seus vilões
Quem tem olhos como faróis
Cada passageiro diferente missões.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Respirando artificialmente



















O desmoronamento do que acredito
Sem alicerces estrutura nenhuma resiste
O espaço entre o que foi e não foi dito
Mentiras ou verdades nada persiste



As palavras e suas transitoriedades
Me permitem confundir e ser confundido
Mergulhado no silêncio da ociosidade
Do perigo que sou não ficarei escondido



Procuro o que todos procuram.
Expectativas Consciente quão difícil esta busca
A lucidez de uma mente criativa
Seu brilho nem a morte ofusca.



Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O Bom Pastor


Meu pastor pelas vigílias anda
Com sua voz terna e branda
Posso ouvir seus passos na madrugada
Onde minha alma é alimentada


Do vale sombrio da morte
Resgata-me para caminhos tranqüilos
Restaura a minha frágil sorte
De ovelha cuidou-me como filho


Meu pastor nunca dorme
Bordão e cajado não descansa
Meu pastor tem raízes nobres
Apascenta-me com abastança


Ferido e sozinho nunca fico
Quanto sou seu rebanho
Pois sempre está comigo
Com seu amor sem tamanho.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Milagre


Andar sobre as águas
Continuar calmo frente à tempestade
Esquecer da memória as mágoas
Perdoar nossa própria humanidade


Crucificar o incontido eu
Cego, enxergar o caminho.
Repartir deste todo meu
Aceitar o nascimento do espinho


Não precisa ser Deus
É preciso ter fé
Para sonhar com os céus
Para permanecer de pé.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Fé Insistente


Quando os dissabores são uma constante
E já respiras nos ares comprimidos da demência
Despido está, de tudo que fora aparência.
Afastado está, de tudo que julgas importante.


Já não choras... Lágrimas distantes
O coração baldio de eloqüência
Dividido em pedaços da divergência
Esmiuçado pelo existir recalcitrante


Em que se apegar numa fé insistente
Limiar entre o se expor ou ficar no conforto
Entre lutar ou aceitar está morto


Esperanças no teu olhar resistente
Que na bravura que encardia
Acredita em melhores dias.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Homenagem para o Grande Armando Giesta - Young Flu - Uma Paixão em Torcida


Os teus guerreiros marcham pela pista.
Vitórias e adversidades, nosso ritmo, punho colado.
As tuas concentrações
com teus cantos de paixão
e teu alarido de guerra.


O mar branco na arquibancada predomina.
O Flu me domina...
As camisas que parecem couraças ou peles.
As nossas cores abrilhantam qualquer estádio.
Gritamos Young Flu até morrer!


Meu coração é envolvido
com a batida da nossa bateria
que incendeia minhas veias.
Meus olhos transbordam
diante de nossas bandeiras.
Estandartes de uma comunhão,
Fluminense e sua torcida.


"Quem fala de nós não sabe o que diz"
Armando,o que fizeste conosco
quando ajuntaste este povo
e criaste esta paixão.


Henrique Rodrigues Soares
Foto de Armando Giesta, fundador desta paixão.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O que é a Verdade?


Estamos perdidos ao encontrar tantas verdades
Que nos explicam tudo sem autenticidade
Nas ruínas de um racionalismo desconhecido
Caminhamos para um futuro indefinido.


No escrutínio de oráculos das deidades
Nas verdades fabricadas por entidades
Continuo sem saber por que fui concebido
Para onde vou quando falecido


Respostas filosóficas que não formam identidade
Certezas teológicas que não suprem necessidades
O que é real? No que acredito? No que tenho crido?


Alegoria platônica, vida de sombras e obscuridade.
Fantasias, códigos, sinais! Acordado ou adormecido?
Livre ou escravo? Insano ou submetido?


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Deus


Confesso, que por instantes
Duvidei de tua existência.
Viajei por teorias distantes
Fugindo de ti com insistência.
O dono de si, perdido, foi constante
Tentando contra ti toda minha resistência.


Preso entre os escombros
De um tempo de sombras
Caindo em vários tombos
Coração explosivo, uma bomba.


Procurando vozes estranhas
E um universo de respostas.
Absorvendo química nas entranhas
E o descaso de quem pouca importa.


Ao fugir desta total presença
Onde dos teus olhos me esconder?
Entender... que não há ausência
Para teu eterno poder.


“Teu julgo é suave
E teu fardo é leve”
Eu preso nos encraves
Das preocupações tão breves.


Quero está com espírito imerso
Pelo mar de calmaria
Ao te adorar em versos
Orando como poesia.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

terça-feira, 24 de maio de 2011

Felicidade


Deixei amores no passado
Sabores que não foram degustados
Este instante me custa tão caro
Como um diamante raro.


Não choro pelo que foi embora
Culpas ou tristezas agora
Semeio sim, a alegria de outrora
De ficar para sentir estas horas.


Ontem, é tão longe como saudade
Hoje, daqui a pouco vira antiguidade
Quero flores e sorrisos no meu jardim.


Retirei os espinhos, mas deixe o capim
Para concentrar o desabrochar da beleza
Foram escolhas caminhos para certeza.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

sábado, 23 de abril de 2011

Romance


Com olhos tristes e contemplantes
Buscando no ar seco e estagnado
Cristalizar... Fotografar o instante
E guardar nos bolsos do passado.


O corpo escapa ao alcance
De mãos e de sonhos
Escrevo um breve romance
De destinos estranhos


No desfiladeiro de intranqüilas curvas
Com a visão envelhecida e turva
Preciso aperfeiçoar meu tato


Em breves... Poucas palavras
Páginas quentes de letras brasas
Vive um mundo intacto.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

domingo, 10 de abril de 2011

Coisas que não se falam


Amei tantos corpos
Que não são meus
Amei tantos sonhos
Que não me pertencem
Vivi tantas vidas
Que não são minhas


Sempre buscando
O que eu não sabia
Mas o que quero
E sei que me pertence


Os enganos tive que engolir
Sem deixar marcas do que fugi
E as flores me provocaram um medo
De segurança... De paz...
Daquilo que se perde
Apenas com esmigalhar da vida
Que espera o corpo secar
Do último vestígio de bebida
Para ser levado pela morte


O medo do desperdício
Me atribula
Com o som louco
Solitário
Da noite
Que incendeia meu corpo
Esperando um sinal de amor sincero
E pleno.


Henrique Rodrigues Soares – Romaria Lírica

segunda-feira, 28 de março de 2011

Dom Casmurro


Se teu olhar te traiu
Na busca do que foi perdido
O semblante sólido agora caiu
Quebrando o disfarce antigo


Atores de um silencioso teatro
Com movimentos e diálogos ensaiados
Durmo e acordo com o abstrato
Gentileza e sorrisos mimados


As cenas com que foi ludibriado
São perfeitas aos olhos apaixonados
Doce visão para um enganado
Que se converteu num ódio enciumado.


O que era desconfiança virou realidade
Qualidades, gordura enfeitada de confeitos.
Que esconde o integro sabor da interioridade
Diante destes olhos agora são defeitos.


O que era incerto virou certo
Visão esclarecida da verdade
O encantado jardim virou deserto
O amor fiel virou maldade.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Preciso Amar!


















Preciso novamente amar...
Amar com versos esquecidos
Preciso encontrar aquele olhar
Antigo e adormecido.


Amar de corpos aquecidos
De suor e odores atrevidos
Beijar perdendo os sentidos
Os limites e a libido.


Preciso novamente amar...
Amar como proibido
Saqueando e sendo perseguido
Comendo e sendo comido
Um lutar e ser vencido.


Amar como enlouquecido
Mar bravio que não pode ser contido
Perdendo respeito pelo temido
Num se pegar que nos deixa combalido.


Preciso Amar... Preciso Amar...
Ressuscitando a pegada do que foi falecido
Reanimando os beijos que estão adoecidos
Reatando os votos prometidos.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

domingo, 23 de janeiro de 2011

Morte

















Alguns dias acordamos cansados
Fadigados e extenuados de viver
Vemos tudo como um trágico fado
E então, compreendemos porque morrer.


Trabalhamos, trabalhamos...
Sem algo para receber
Nos enganamos e saciamos
Construindo sonhos de poder.


O dia começa exaustivo
Sem novidades para acontecer
Sem desejos ou motivos
Vamos nos acostumando a esquecer.


A mulher grávida anda e chora
Com suas mãos segurando, tentando conter.
Um vivente que quer ver o mundo afora
Com seus próprios olhos conhecer.


Começou de novo o que ficará velho
De todos os choros, o melhor é o de nascer.
No universo de estrelas, um centelho.
Abriu, brilhou e agora vai escurecer.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

domingo, 9 de janeiro de 2011

Japeri
















Acordas bem cedo!
Tem que trabalhar
Está bem longe, acanhado,
Escondido no final da baixada.


Madrugadas frias
Com ruas de terra e um verde calado
Cinza de pouca esperança
Passos miúdos e apressados
De um povo que corre
Como as águas do Guandu
Num ritmo suave que nunca pára.


O sol acorda os montes
E ao redor da ferrovia
Tudo desperta e se mexe
Com espreguiçar de quem não se espera muito.
As crianças brincando de bola,
Soltando pipa e indo para escola.


Poucas ruas asfaltadas
Com casas longas e outras apertadas
Algumas tão pobres, outras como rosto de moça rica pintada.
Aonde os animais vivem em harmonia com humanos.
E humanos que vivem como animais ajuntam seus pertences
Para próximo acampamento noturno.


Ao chegar da noite
Tuas noites têm estrelas
A criançada brinca pelas ruas descalçadas
Sem se preocupar com o amanhã.
A lua brilha achando graça
Junto com as moças nas acanhadas praças,
Que não tem hora para adormecer.


O povo vai descendo dos trens
Com bolsas, sonhos e cansaço
E logo adormece pequena cidade
Do meu coração.
As casas cheiram silêncio
As ruas cheiram escuridão
Esperando o nascer de um novo dia
Com sua rotina repetitiva.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sentença



















Já fomos felizes
Quando beijos
Rimavam com desejos.
Se anos de rotina
Fez do amor oficina
De atores e atrizes.


Os olhares ardidos
Agora são frios
O desnudar escondido
Agora sem brio.


Um exercício tardio
Sem sorrisos, sem energia
Diálogo e carinho vazio
Limitado e sem ousadia.

Se alguém sofre
Não se sabe
Toda rudeza encobre
E nada de belo cabe


No rol de gestos imitados
No prazer copiado
Ou procura de culpados
Para um fim acertado.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Monomania















palavras sucessivas oprime
sugestões estúpidas confusas
dominado pelo tenebroso crime
de quê me acusas?


me acusas sem precisão
da grandeza de meus planos
qual é a questão?
porque tão desumano?


danos me foram legados
inclusos em minha parte
não sei qual foi meu pecado?
deve ter sido. - amar-te


continuo com esta doença
de carne, alma e pensamento
ato de fé por uma crença
idéias em confinamento


furtaste os meus segredos
me arrebentara num precipício
não há castelos nem espelhos
só muros e edifícios


II
já não falamos a mesma língua
abriste todos os meus segredos
conheceste as minhas manias
hoje revelas os meus medos


medo das alturas
medo dos copos quebrados
medo das mãos puras
e dos meus olhos afogados


afogados no mar que criei
me cortei nos corais
são marcas que conquistei
para esquecer nunca mais.


Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas

domingo, 19 de dezembro de 2010

O Sobrevivente




















o ar quente que sai do teu decote
a vida espontaneamente espera a morte
os lábios que falam como chicote
os corpos açucarados num fricote


na vida sobrevivem os fortes
não para essa de azar ou sorte
limpei as feridas, curei os cortes
todo time tem seu mascote


II
o cumprimento da tua minissaia
o infortúnio da vaia
a marcação da raia
a mordida da lacraia


a arte dos índios Maias
a febre da malária
nem todos são da mesma laia
nem todos vestem uma mesma malha


III
veja essa onda de livre umbigo
produto de desejo antigo
para palavras não ligo
não resolvem... não são meu abrigo


quantas dores sem amigos
quanta fome sem trigo
esta saudade que levo comigo
de tudo que deixei contigo


IV
a impotência é o maior aleijo
qual o valor de um beijo?
qual o sabor de um queijo?
o que sonho? o que almejo?


tudo é quanto tão vejo?
são quentes os desejos
desordens que antevejo
nascem de um simples gracejo


V
procuro de tudo um sinal
tão simples e irracional
tão chulo e tão banal
para sintonia ou canal


me ensine o bem e o mal
me ensine o sensacional
traduza para meus olhos o fatal
antes que me cale com o final


Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Alma Corsária
















fotografias antigas não tenho
lúcida treva na memória
subterrâneo sem estória
o passado queimou como lenho


amores foram sem escolhas
gavetas... maçanetas rachadas
dor triste desafinada
árvore, só de galhos e sem folhas


não consigo olhar as luzes amargas
no meu ouvido canções terríveis e mortas
no mar longe das dorcas
edifícios, ilhas e cruzes


o eterno esconde a verdade
as suas pernas escondem o mito
as estrelas o infinito
de quem procura a realidade


meus versos sem nexo
são rascunhos de um dia
notas de uma melodia
perdida sem sucesso


II
amo tua tristeza e tuas estrias
não sou bom falando palavras
mas as escrevos com simpatia


neste mundo que raro é a esperança
nos olhos dos vivos
tão duvidosos e tão decididos
são caro também os dias e os dedos
vende-se corpos, almas e crianças
tudo é tão claro, quando não um segredo


o amor é sempre repetitivo
muda-se apenas os nomes
os mesmos beijos... a mesma fome


eterna mutação dos princípios e dos fins
leitura do não e do sim
pelo rio da dúvida infinita
tão revolta e desdita
navegas a vida sem consolação.


Henrique Rodrigues Soares

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Encontro














Naquela noite serena em que te encontrei
Brotara no teu rosto sorriso sem igual
que como uma áurea angelical
me conquistara. Então te amei


como se ama sem prudência
Num desejo de querer
Num desejo de ter
sem vícios ou dolências


Como um corcel atropelei o vento
numa corrida louca
Meu coração disparou à solta
a procura do seu sustento


Um selvagem sem espírito
cavalgava pela natureza
sem títulos de nobreza
tendo pela frente apenas o infinito


A violentos galopes fui a tua procura
Quando te encontrei. Cansado
esperei por teu olhar iluminado
Um olhar profundo de ternura.


Henrique Rodrigues Soares

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ritmo das Coisas














me experimentas com sal ou doce
me cumprimentas com mãos ou olhos
me facilitas com sorrisos
me acostumas com as horas


me costuras com os amores
me fascina com as cores
me engana com as flores
me escraviza com os sabores


mas, não me farto
mas, não me encontro...


os edifícios me sufocam
este barulho todo me ensurdece
estes andares femininos me provocam
a miséria me emudece


os grandes anúncios te convocam
para liquidação ou para prece
os carros se atropelam numa quermesse
os pedestres fazem sexo quando se tocam


mas, não me farto
mas, não me encontro...


Henrique Rodrigues Soares

domingo, 7 de novembro de 2010

Problemas do Amor




















O amor é feito de retalhos
cheio de manhas, manhãs e atalhos
as cabeças pendem como holofotes
Olhos vêem os escondidos dotes
que ao efeito do vinho
rebelam em suaves carinhos


A lua acende e ilumina
paixões que correm pelo corpo
A lua enlouquece a solidão
fria que se derrama em copos


A noite é pequena para quem ama
Se quer sol na noite e cama,
de dia e chama
sangue tinto de qualidade


II
As minhas mãos te atravessam
Meus olhos conversam com os teus
Hora fria é a hora do adeus
Bocas degustam o doce do outro
E os calores dos corpos produzem luz
Luz para estas escuras vidas


Mas um dia, e todos os outros são cinzas
uma palavra, um gesto, uma dor, um medo
no corpo e nos olhos
tudo que era limpo e belo, agora é sujo e falso


III
Palavras não levam a lugar nenhum
contas que são faz-de-contas mal contados
tantas portas e tão poucos caminhos
tanto sexo sem nexo e carinho


Sentimentos flácidos e gordurosos
cozinham sem tempero
esperando o mau gosto de alguém para comê-los


IV
Procuras o quê?
-Não sei!
Há tantos procurando tantos
Há pranto em vários cantos
que meu canto diante de tanto pranto se calou


Risos cospem na face
o frio do desgosto corre nas veias
Preciso de teu corpo nem que seja como árvore


Mentiras e enganos...
Somos tão humanos
que nos parece honesto
ser assim.


Henrique Rodrigues Soares

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Canto de Solidão




















solitário, e sem ouvintes
caminho falando mentiras
uma voz tonitruante
flui na intensa luta
meus planos inconstantes
meus passos flutuantes
são manual de verdade


nos ocasos os acasos
verdadeiros casos de dor
febres tomam nossos corpos
e vemos tudo como uma única chance


hoje, está tão frio
esta chuva fina
despertando o cio
de quem não tem amor


quantas vezes teu sexo
é maior que o mundo
quantas vezes teus olhos
desejam profundo
um pouco de silêncio
um pouco do imenso
um pouco de morte


quantas vezes tua cama
tua fama, tua lama
dispensas vazias e muitos ratos


a saudade chama...
clama... inflama
por todos os dias
corrói os fatos


são tantos dramas
tão pouca comédia
é calor de epiderme
lágrimas de verme


não me iludo com mimos
no amor sempre se perde
cada rio tem seu morredouro
mas é preciso...


Henrique Rodrigues Soares

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Inconsciência do Saber


















Levemente, as suscetibilidades te atrasam
Teu corpo sem fôlego
Como um rio sobre um córrego
É tanto alimento que vazam


A tristeza engordura tua face
Com seu sombrio olhar
E num vento você ver rasgar
A ingratidão de teu disfarce


O medo de perder te contém
Na briga pelo território
O teu coração bode expiatório
Das dores que te controlam


O possuir é tão fraco
Como deixar-se escapar
Os opostos formam par
"O ser ou não ser" não deixa rastro


Henrique Rodrigues Soares

domingo, 31 de outubro de 2010

Prisioneiro da Solidão




















Sem chances sem palavras
Uma solidão branca devassa domina meu coração
Tudo anda em círculos
da obra prima a matéria bruta
tudo se compõe e decompõe em grãos


Os ditadores esquizofrênicos
os D. Juans amargos
os baús trancados
pelo passado sem chaves
nunca mais usados por ninguém


Os sonhos são ousados
mas a perdição é inconsciente
A vida um recipiente
onde alegria e tristeza disputam lugar


Amar é entregar
ao convívio das ilusões
Desejar é querer
domar o touro pelos chifres
O egoísmo transforma o coração
num oceano de solidão


Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas

sábado, 30 de outubro de 2010

El Pibe de Oro
















Como verei futebol sem ver Maradona.
Cadê o craque argentino?
Futebol de gigante... tamanho de menino!


O que será de nós? Pobres mortais!
Sem vê-lo com a camisa azul e branca de seu país
O gramado que fora pisado por seus mágicos pés
A bola que acariciada foi por seus toques sensuais...
hoje choram de saudade por aquele craque do Boca
que calou tantas bocas...
e acendeu outras de alegria


Ah, Napolitanos!
Quanta tristeza vela em seus corações
Ah, Castelhanos!
Guardem em teus olhos as visões
do menino demônio
que conquistou o mundo com o dom do futebol.
Tão feroz como um furacão passou
Com o talento magnífico nos encantou
Maldito foi, os caminhos de seu coração


De deus, agora vida de mortal
num tango sem carnaval
passos de tristeza e dor.
A Argentina, o Mundo,
viu o martírio num lento suicídio
do herdeiro castelhano
de Pelé e Garrincha.


Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas

domingo, 24 de outubro de 2010

Meditações sobre Vida e Morte
















os distúrbios mentais
os licores carnais
o descanso da tarde
o nascer da madre
respirando o ar matinal
o receber noturno
com o desespero do infortúnio


o veneno guardado no bolso
o egoísmo que não ouço, que não ouso falar
os temores, os dissabores, os rancores
colhidos no coração
são de uma safra sem perdão
são uma sombra sem salvação


mas todos querem viver
nem que sejam com as bocas caladas
com o riso das ciladas
em suas faces
as células aventureiras gritam pela ação
enquanto a morte quer nos aleijar na solidão


o vento envelhece seus sonhos diuréticos
quase caquéticos
seus desejos dietéticos
seus ideais comprados em liquidação


o vento liberta
seu ódio encarcerado
seu medo doutrinado
cheio de observação


Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas