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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Conta-gotas














Quando a dor fala mais alto que a voz
E as forças insuficientes para caminhar
Quando somente choras quando fica a sós
O interior sufocado precisa gritar


Aguarda desesperadamente uma porta
Se abrir como esperança para sonhar
Desastroso acordar sem resposta
E cansativo este tal de esperar


Os minutos que sucedem após
Contados com conta-gotas fiel
São como perfeito e vil algoz
Tu fita os olhos no céu


Como esperando repentina amostra
De um toque milagroso divino
Depositando uma única aposta
Naquele que te ama desde menino.



Henrique Rodrigues Soares

domingo, 9 de novembro de 2014

Inverno













O trem passou e fiquei na estação
Confuso entre meus velhos empecilhos
O silêncio absurdo no coração
É o fruto das distâncias entre trilhos


O tempo passou e fiquei na lentidão
De um rosto assustado e sem brilho
Levado por uma solida tradição
De gravidez que não produz filho


O vento passou e fiquei ferido
Por minhas próprias mãos
Com marcas tão profundas


Este inverno tão temido
Com tardes sem previsões
A noite comovente e absurda.


Henrique Rodrigues Soares

27/07/2011.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Fragmentos urbanos
















Vendo teu corpo humana escultura
Que absorve minha atenção
Ouvindo o trash do sepultura
Que acelera meu coração


Tudo neste mundo é meio louco
Não há sentido nas palavras proferidas
Tudo que para alguns é muito
Para outros é tão pouco


As balas perdidas que dizem perdidas
Como os sonhos do alvejado
Números frios das estatísticas
Para ações de frios advogados.


Henrique Rodrigues Soares

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

José foi ao vale dos ossos.










Parece que lhe tiraram o chão
Te colocaram dentro do poço
Parece que lhe cegaram a visão
Te aprisionaram num calabouço


Parece que já não sonhas
E também já não dormes
Parece que angustia te acompanha
E a ansiedade te consome


Mortos, não mais que mortos.
Um vale de sequíssimos ossos
Solidão ingrata sem portos
Ruína, e confusão em destroços.


Em que sustenta tua confiança?
Cercado de vergonha e dores
A alma ingênua procura esperança
Secou a vida com suas cores


II
O vento divino da mudança
Levantam-se ossos, reconstrói tendões.
Nascem carne e epiderme de criança
Novos rumos para novas canções


No lugar de chão agora tem asas
O poço, água para matar tua sede.
Resplandece o que estava sem luz
Olhas tudo agora pela graça


Os sonhos são realidade
Para aquele que tem dormido
Renovas tua identidade
Com espírito rejuvenescido.


Henrique Rodrigues Soares

20/07/2011.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O que é a Verdade?


Estamos perdidos ao encontrar tantas verdades
Que nos explicam tudo sem autenticidade
Nas ruínas de um racionalismo desconhecido
Caminhamos para um futuro indefinido.


No escrutínio de oráculos das deidades
Nas verdades fabricadas por entidades
Continuo sem saber por que fui concebido
Para onde vou quando falecido


Respostas filosóficas que não formam identidade
Certezas teológicas que não suprem necessidades
O que é real? No que acredito? No que tenho crido?


Alegoria platônica, vida de sombras e obscuridade.
Fantasias, códigos, sinais! Acordado ou adormecido?
Livre ou escravo? Insano ou submetido?


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

sábado, 23 de abril de 2011

Romance


Com olhos tristes e contemplantes
Buscando no ar seco e estagnado
Cristalizar... Fotografar o instante
E guardar nos bolsos do passado.


O corpo escapa ao alcance
De mãos e de sonhos
Escrevo um breve romance
De destinos estranhos


No desfiladeiro de intranqüilas curvas
Com a visão envelhecida e turva
Preciso aperfeiçoar meu tato


Em breves... Poucas palavras
Páginas quentes de letras brasas
Vive um mundo intacto.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

domingo, 10 de abril de 2011

Coisas que não se falam


Amei tantos corpos
Que não são meus
Amei tantos sonhos
Que não me pertencem
Vivi tantas vidas
Que não são minhas


Sempre buscando
O que eu não sabia
Mas o que quero
E sei que me pertence


Os enganos tive que engolir
Sem deixar marcas do que fugi
E as flores me provocaram um medo
De segurança... De paz...
Daquilo que se perde
Apenas com esmigalhar da vida
Que espera o corpo secar
Do último vestígio de bebida
Para ser levado pela morte


O medo do desperdício
Me atribula
Com o som louco
Solitário
Da noite
Que incendeia meu corpo
Esperando um sinal de amor sincero
E pleno.


Henrique Rodrigues Soares – Romaria Lírica

segunda-feira, 28 de março de 2011

Dom Casmurro


Se teu olhar te traiu
Na busca do que foi perdido
O semblante sólido agora caiu
Quebrando o disfarce antigo


Atores de um silencioso teatro
Com movimentos e diálogos ensaiados
Durmo e acordo com o abstrato
Gentileza e sorrisos mimados


As cenas com que foi ludibriado
São perfeitas aos olhos apaixonados
Doce visão para um enganado
Que se converteu num ódio enciumado.


O que era desconfiança virou realidade
Qualidades, gordura enfeitada de confeitos.
Que esconde o integro sabor da interioridade
Diante destes olhos agora são defeitos.


O que era incerto virou certo
Visão esclarecida da verdade
O encantado jardim virou deserto
O amor fiel virou maldade.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

domingo, 9 de janeiro de 2011

Japeri
















Acordas bem cedo!
Tem que trabalhar
Está bem longe, acanhado,
Escondido no final da baixada.


Madrugadas frias
Com ruas de terra e um verde calado
Cinza de pouca esperança
Passos miúdos e apressados
De um povo que corre
Como as águas do Guandu
Num ritmo suave que nunca pára.


O sol acorda os montes
E ao redor da ferrovia
Tudo desperta e se mexe
Com espreguiçar de quem não se espera muito.
As crianças brincando de bola,
Soltando pipa e indo para escola.


Poucas ruas asfaltadas
Com casas longas e outras apertadas
Algumas tão pobres, outras como rosto de moça rica pintada.
Aonde os animais vivem em harmonia com humanos.
E humanos que vivem como animais ajuntam seus pertences
Para próximo acampamento noturno.


Ao chegar da noite
Tuas noites têm estrelas
A criançada brinca pelas ruas descalçadas
Sem se preocupar com o amanhã.
A lua brilha achando graça
Junto com as moças nas acanhadas praças,
Que não tem hora para adormecer.


O povo vai descendo dos trens
Com bolsas, sonhos e cansaço
E logo adormece pequena cidade
Do meu coração.
As casas cheiram silêncio
As ruas cheiram escuridão
Esperando o nascer de um novo dia
Com sua rotina repetitiva.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sentença



















Já fomos felizes
Quando beijos
Rimavam com desejos.
Se anos de rotina
Fez do amor oficina
De atores e atrizes.


Os olhares ardidos
Agora são frios
O desnudar escondido
Agora sem brio.


Um exercício tardio
Sem sorrisos, sem energia
Diálogo e carinho vazio
Limitado e sem ousadia.

Se alguém sofre
Não se sabe
Toda rudeza encobre
E nada de belo cabe


No rol de gestos imitados
No prazer copiado
Ou procura de culpados
Para um fim acertado.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Monomania















palavras sucessivas oprime
sugestões estúpidas confusas
dominado pelo tenebroso crime
de quê me acusas?


me acusas sem precisão
da grandeza de meus planos
qual é a questão?
porque tão desumano?


danos me foram legados
inclusos em minha parte
não sei qual foi meu pecado?
deve ter sido. - amar-te


continuo com esta doença
de carne, alma e pensamento
ato de fé por uma crença
idéias em confinamento


furtaste os meus segredos
me arrebentara num precipício
não há castelos nem espelhos
só muros e edifícios


II
já não falamos a mesma língua
abriste todos os meus segredos
conheceste as minhas manias
hoje revelas os meus medos


medo das alturas
medo dos copos quebrados
medo das mãos puras
e dos meus olhos afogados


afogados no mar que criei
me cortei nos corais
são marcas que conquistei
para esquecer nunca mais.


Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas

domingo, 19 de dezembro de 2010

O Sobrevivente




















o ar quente que sai do teu decote
a vida espontaneamente espera a morte
os lábios que falam como chicote
os corpos açucarados num fricote


na vida sobrevivem os fortes
não para essa de azar ou sorte
limpei as feridas, curei os cortes
todo time tem seu mascote


II
o cumprimento da tua minissaia
o infortúnio da vaia
a marcação da raia
a mordida da lacraia


a arte dos índios Maias
a febre da malária
nem todos são da mesma laia
nem todos vestem uma mesma malha


III
veja essa onda de livre umbigo
produto de desejo antigo
para palavras não ligo
não resolvem... não são meu abrigo


quantas dores sem amigos
quanta fome sem trigo
esta saudade que levo comigo
de tudo que deixei contigo


IV
a impotência é o maior aleijo
qual o valor de um beijo?
qual o sabor de um queijo?
o que sonho? o que almejo?


tudo é quanto tão vejo?
são quentes os desejos
desordens que antevejo
nascem de um simples gracejo


V
procuro de tudo um sinal
tão simples e irracional
tão chulo e tão banal
para sintonia ou canal


me ensine o bem e o mal
me ensine o sensacional
traduza para meus olhos o fatal
antes que me cale com o final


Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Alma Corsária
















fotografias antigas não tenho
lúcida treva na memória
subterrâneo sem estória
o passado queimou como lenho


amores foram sem escolhas
gavetas... maçanetas rachadas
dor triste desafinada
árvore, só de galhos e sem folhas


não consigo olhar as luzes amargas
no meu ouvido canções terríveis e mortas
no mar longe das dorcas
edifícios, ilhas e cruzes


o eterno esconde a verdade
as suas pernas escondem o mito
as estrelas o infinito
de quem procura a realidade


meus versos sem nexo
são rascunhos de um dia
notas de uma melodia
perdida sem sucesso


II
amo tua tristeza e tuas estrias
não sou bom falando palavras
mas as escrevos com simpatia


neste mundo que raro é a esperança
nos olhos dos vivos
tão duvidosos e tão decididos
são caro também os dias e os dedos
vende-se corpos, almas e crianças
tudo é tão claro, quando não um segredo


o amor é sempre repetitivo
muda-se apenas os nomes
os mesmos beijos... a mesma fome


eterna mutação dos princípios e dos fins
leitura do não e do sim
pelo rio da dúvida infinita
tão revolta e desdita
navegas a vida sem consolação.


Henrique Rodrigues Soares

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Encontro














Naquela noite serena em que te encontrei
Brotara no teu rosto sorriso sem igual
que como uma áurea angelical
me conquistara. Então te amei


como se ama sem prudência
Num desejo de querer
Num desejo de ter
sem vícios ou dolências


Como um corcel atropelei o vento
numa corrida louca
Meu coração disparou à solta
a procura do seu sustento


Um selvagem sem espírito
cavalgava pela natureza
sem títulos de nobreza
tendo pela frente apenas o infinito


A violentos galopes fui a tua procura
Quando te encontrei. Cansado
esperei por teu olhar iluminado
Um olhar profundo de ternura.


Henrique Rodrigues Soares

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ritmo das Coisas














me experimentas com sal ou doce
me cumprimentas com mãos ou olhos
me facilitas com sorrisos
me acostumas com as horas


me costuras com os amores
me fascina com as cores
me engana com as flores
me escraviza com os sabores


mas, não me farto
mas, não me encontro...


os edifícios me sufocam
este barulho todo me ensurdece
estes andares femininos me provocam
a miséria me emudece


os grandes anúncios te convocam
para liquidação ou para prece
os carros se atropelam numa quermesse
os pedestres fazem sexo quando se tocam


mas, não me farto
mas, não me encontro...


Henrique Rodrigues Soares

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Canto de Solidão




















solitário, e sem ouvintes
caminho falando mentiras
uma voz tonitruante
flui na intensa luta
meus planos inconstantes
meus passos flutuantes
são manual de verdade


nos ocasos os acasos
verdadeiros casos de dor
febres tomam nossos corpos
e vemos tudo como uma única chance


hoje, está tão frio
esta chuva fina
despertando o cio
de quem não tem amor


quantas vezes teu sexo
é maior que o mundo
quantas vezes teus olhos
desejam profundo
um pouco de silêncio
um pouco do imenso
um pouco de morte


quantas vezes tua cama
tua fama, tua lama
dispensas vazias e muitos ratos


a saudade chama...
clama... inflama
por todos os dias
corrói os fatos


são tantos dramas
tão pouca comédia
é calor de epiderme
lágrimas de verme


não me iludo com mimos
no amor sempre se perde
cada rio tem seu morredouro
mas é preciso...


Henrique Rodrigues Soares

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Inconsciência do Saber


















Levemente, as suscetibilidades te atrasam
Teu corpo sem fôlego
Como um rio sobre um córrego
É tanto alimento que vazam


A tristeza engordura tua face
Com seu sombrio olhar
E num vento você ver rasgar
A ingratidão de teu disfarce


O medo de perder te contém
Na briga pelo território
O teu coração bode expiatório
Das dores que te controlam


O possuir é tão fraco
Como deixar-se escapar
Os opostos formam par
"O ser ou não ser" não deixa rastro


Henrique Rodrigues Soares

domingo, 31 de outubro de 2010

Prisioneiro da Solidão




















Sem chances sem palavras
Uma solidão branca devassa domina meu coração
Tudo anda em círculos
da obra prima a matéria bruta
tudo se compõe e decompõe em grãos


Os ditadores esquizofrênicos
os D. Juans amargos
os baús trancados
pelo passado sem chaves
nunca mais usados por ninguém


Os sonhos são ousados
mas a perdição é inconsciente
A vida um recipiente
onde alegria e tristeza disputam lugar


Amar é entregar
ao convívio das ilusões
Desejar é querer
domar o touro pelos chifres
O egoísmo transforma o coração
num oceano de solidão


Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas

sábado, 30 de outubro de 2010

El Pibe de Oro
















Como verei futebol sem ver Maradona.
Cadê o craque argentino?
Futebol de gigante... tamanho de menino!


O que será de nós? Pobres mortais!
Sem vê-lo com a camisa azul e branca de seu país
O gramado que fora pisado por seus mágicos pés
A bola que acariciada foi por seus toques sensuais...
hoje choram de saudade por aquele craque do Boca
que calou tantas bocas...
e acendeu outras de alegria


Ah, Napolitanos!
Quanta tristeza vela em seus corações
Ah, Castelhanos!
Guardem em teus olhos as visões
do menino demônio
que conquistou o mundo com o dom do futebol.
Tão feroz como um furacão passou
Com o talento magnífico nos encantou
Maldito foi, os caminhos de seu coração


De deus, agora vida de mortal
num tango sem carnaval
passos de tristeza e dor.
A Argentina, o Mundo,
viu o martírio num lento suicídio
do herdeiro castelhano
de Pelé e Garrincha.


Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas

domingo, 24 de outubro de 2010

Meditações sobre Vida e Morte
















os distúrbios mentais
os licores carnais
o descanso da tarde
o nascer da madre
respirando o ar matinal
o receber noturno
com o desespero do infortúnio


o veneno guardado no bolso
o egoísmo que não ouço, que não ouso falar
os temores, os dissabores, os rancores
colhidos no coração
são de uma safra sem perdão
são uma sombra sem salvação


mas todos querem viver
nem que sejam com as bocas caladas
com o riso das ciladas
em suas faces
as células aventureiras gritam pela ação
enquanto a morte quer nos aleijar na solidão


o vento envelhece seus sonhos diuréticos
quase caquéticos
seus desejos dietéticos
seus ideais comprados em liquidação


o vento liberta
seu ódio encarcerado
seu medo doutrinado
cheio de observação


Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas