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quinta-feira, 8 de julho de 2010
Repente Sudestino
o que meu cérebro guarda
no seu obscuro mar
nem tudo me agrada
mas tudo vem me abraçar
o meu ímpeto como farda
me obriga a usar
a dor em cada
momento de amar
falo com a espada
entre meus dentes mordazes
não acredito em fadas
pastores ou padres
sou tudo que enfarta
pois guardo como ases
este mal que como facadas
no jogo são eficazes
sinto o mundo como nada
passar pelos meus olhos
nada neles ficam, nada
nada como espólio
II
meus versos são usuários
são flores num campanário
são amor de solitário
são do tempo um escapulário
tanta gente nesse mundão
cada um como ermitão
aprendendo solidão
no convívio da multidão
se nasce pra morrer
se vive pra nascer
nada tão puro pode acontecer
não há verdades para conhecer
tantos procuram amor e paixão
se queimam com poder do vulcão
que as larvas consomem ilusão
como a terra engole seu caixão
alguns vivem para o riso
se dizem libertos de compromissos
na realidade são apenas submissos
ao pecado da omissão.
Henrique Rodrigues Soares
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Fotógrafo
Aquilo que chamam de mato sem graça
ele chama de Natureza
Aquilo que chamam de chão
ele chama de Raízes
O cantar dos pássaros posso quase ouvir
no instante clicado
Sinto as folhas mexendo pelo vento
Sinto o perfume das flores desabrocharem
O foco da imagem que passa em minhas retinas
ele grava com seus olhos máquinas
nos dando poesia para sempre.
A poesia pode ser escrita
A poesia pode ser fotografada
A poesia deve ser lida
A poesia deve ser contemplada
Entre a imaginação e a realidade
Os bichos, as plantas e os humanos
Os atos e os fatos
Nas florestas de tintas.
Henrique Rodrigues Soares
Ao meu amigo Antônio Carlos Januário - Um poeta das imagens.
sábado, 12 de dezembro de 2009
O Operário e o Marinheiro
E o operário, carvão que alimenta as usinas
Força, combustão usada nas oficinas
Ser bruto que habita em obscuras minas
Escravos das horas como uma máquina humana
Preso a um salário de semana
que ao seu trabalho profana
por seu valor mísero e curto
E o patrão de meios escusos
já que possui muitos recursos
com a esperteza de quem sabe furtar
consegue dividir ou enganar?
Um salário p'ra três, e conseguindo escravizar
ao operário que sem dinheiro
como um bom marinheiro continua a navegar
Pois melhor um navio pobre do que ficar longe do mar
E assim sendo, o solitário marinheiro
navega, navega, navega...
com seu estômago vazio
com sua alma vazia
mas com seus olhos cheios de águas
Águas do mar
Nada, nada, nada...
pois acabou o combustível
E quando reclama
nada, nada, nada...
pois acabou o mar
O mar secou.
Henrique Rodrigues Soares
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Conto de Fadas
Um dia conheceu-se a América
Nasceu Brasil tão lindo, tão verde, verde...
que até hoje não amadureceu
Portugal sua pátria madrasta
como uma madrasta sempre o amou
Veio então a tal liberdade
e depois a maçã ianque
e depois... e depois... e depois
O Brasil dorme até hoje
esperando o príncipe encantado.
Henrique Rodrigues Soares
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Amor Demitido
Sussurrando desejos proibidos
Teu arcano tornou-se tua arma
E minha fraqueza meu carma
Os teus sonhos terapia de vida
Perdidos num antártico verão
Tuas mentiras tornaram-se bebidas
para alimentar esta física ilusão
Amor que agoniza
Amor que tira sangue
e que deterioriza
Amor que te deixa perdido
estúpido... incompreendido
pelo mundo que rodeia
Demitido... aviso prévio
Justa causa pode ser
Mas meu coração não aceita
Peço que volte e fique
e tire este ardoroso tédio
que não consigo mais vencer.
Henrique Rodrigues Soares
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Rosa de Sarín
Vida que me foge...
Sangue meu que escorre...
Quando verei de novo
o sol nascer?
Quando teus raios
voltarão a me aquecer?
Tenho esperado por você
minha manhã de alegria
A madrugada é longa
tem durado noites e dias
Não fujas de mim
estanque meu sangue
socorra minhas lágrimas
enxugue minha solidão
Há dias que penso em você
Há noites que penso em você
E estes pensamentos
refrigeram meu coração
Te trago nos meus olhos
Te trago em meu peito
O meu sol não quer ocaso
Quer sempre o dia perfeito.
Henrique Rodrigues Soares
domingo, 25 de outubro de 2009
Momento de Poesia
Arranquei-lhe um beijo
como se arranca uma esperança
dessas que se planta, rega, nasce e suplanta
Seus olhos arregalados me devoraram num susto profundo
Tão profundo quanto o beijo que lhe roubei
E minha língua roçando sua língua
seu estômago, seu pulmão, seu corpo, sua alma
E em pouco tempo nos tornamos nuvens
nuvens carregadas de poesia
Choveu poesia em nossos corpos
e nossos corpos suaram poesia
e quando acabou a poesia
A vida voltou ao mesmo inferno.
Henrique Rodrigues Soares
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Poética
Não faço versos
Eles apenas brotam na minha escuridão
e escorrem
suando
em minhas mãos,
e se entregam ao papel
É como uma fonte que mina na rocha
querendo encontrar seu destino.
Henrique Rodrigues Soares
domingo, 4 de outubro de 2009
Semente Embrionária
Minha mãe terra, meu pai agricultor
Arando com palavras belas e afáveis
o solo fértil
para receber as sementes
Semente embrionária
ali germinara
Em choro minha mãe me viu nascer
abrindo as portas do céu e do inferno para mim
Me dando calor no inverno
me guardando das dores geladas do mundo
Recebi dúvidas e incertezas como companhia
Andei, andei, andei...
e procurei, procurei, procurei...
por este mundo outro ser como eu
Então, te encontrei
Alguém melâncolico como a mim
Teu ódio parecia ser meu
Então você me roubou
neste mundo inseguro
Do meu coração
o sentimento mais puro
O sentimento que nasce, germina
e amadurece até cair de maduro.
Henrique Rodrigues Soares
sábado, 3 de outubro de 2009
O Escritor e seus Romances
Ao escritor, o silêncio das palavras
é fúnebre, é triste,
e a máquina na mesa
congela ao frio do desuso
Calada
O iceberg quer o silêncio quebrado
Ela o instiga e o chama
criando um tumulto
Os personagens pulam, dançam e andam
no seu peito
Um terremoto, um maremoto,
um largo de chama que ferve e inflama
Querem criar vida própria
Querem a liberdade do seu criador
Então, elas gritam:
- Solte os grilhões que nos aprisiona
Nos liberte num livro
Deixa viver as páginas
qual nós pertencemos
Deixa-nos viver
para com o fim das estórias morrermos
E ressuscitaremos a cada leitura
de um leitor
que nos quer conhecer,
nos amar, nos odiar,
nos dar vida...
Henrique Rodrigues Soares
domingo, 20 de setembro de 2009
Rimas e métrica
Não metrifico versos
não me preocupo com rimas
Pois a poesia é livre,
e ela sai como quer
Sou apenas seu transporte
Sou apenas o oceano onde desagua suas águas
E ela, um cavalo selvagem
que cavalga como a natureza
impulsiva e indomável.
Henrique Rodrigues Soares
Sensações
Não ligue para as televisões ligadas
não ligue para os telefones chamando
ouça apenas o som
ressoando lá fora,
o som do mundo vivo.
Não! para este mundo morto das televisões.
Não! para as vozes sem rosto dos telefones.
Não! para estas pessoas que te cercam
com seus pensamentos codificados.
Sim! quero ouvir...
Quero ouvir os ruídos dos insetos
quero ouvir o marulhar das águas do mar
quero ouvir o eco do vento
passear pela madrugada solitária
quero ouvir pássaros, bichos
entrando e saindo nos meus tímpanos.
Não! para o som metálico e correto das máquinas.
Apenas, quero ouvir
O som sem sentido
que dá sentido ao mundo.
Henrique Rodrigues Soares
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Romaria Lírica
Alguns seres vegetam
Alguns caminham na chuva
Alguns enxergam na escuridão
Existe pessoas que sentam
e esperam as folhas caírem
Há pessoas que andam
e há também pessoas que dormem
no seu sono de aniquilação
Veja os rostos submissos
as mãos que agradecem
os empalhados sorrisos
que enchem teu ego
Veja o medo da morte
que cerca os mortos-vivos
Veja os olhares preconceituosos
dos que nasceram no preconceito
morrem cobertos por ele
Não olhe as flores que nascem com o despertar do sol
Não olhe as plantas dançarem, sorrirem com a chuva
Não olhe os pássaros cantarem ao vento
pois isto, é tão passageiro
Veja apenas o que te preocupa
Pois o que falamos é o resumo de muitas vidas.
Henrique Rodrigues Soares
sábado, 12 de setembro de 2009
Sociedade dos Eremitas
Sou uma pétala num jardim
sou uma gota d'água no mar
sou um grão de areia na praia
sou tão pequeno... tão frágil
e tão soberbo
que as vezes
audaciosos como somos
julgamos ao mundo e a Deus.
Nos achamos um petardo, uma bomba nuclear
nossas línguas afiadas destruindo a tudo e a todos
a língua? a ponte? ou a destruição da amizade?
E a raça humana, superior aos outros seres vivos
não consegue viver sem o ser morto, sem o menor molusco
mas mesmo assim, nos achamos poderosos, sábios, deuses
e não entendemos a nós mesmos.
Nos enganamos na ânsia de esconder o medo, a angústia
humana de viver só
pois o homem vive só...
só ele que não sabe
-Por favor, não diga para ele.
Estamos cercados de pessoas
e as pisamos como pedras que ficam ao caminho.
Fingimos não vê-las ou não vemos
pois nosso orgulho cegou nossos olhos.
Então me pergunto,
até que dia
o homem vai acreditar
que ele é social?
Henrique Rodrigues Soares - Poesia de abertura do livro Sociedade dos Eremitas 1990/1996
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